Farinha da boa

Os engenhos de farinha mantém a tradição de gerações

O passeio é fantástico pra uma tarde de segunda-feira...
Saio em direção ao Morrinhos e na subida para o Siriú tem aquela vista deslumbrante, do canto Norte da praia do Centro. Primeiro suspiro...
Depois, sigo a Geral de Areias do Siriú, passo pelas dunas, na bucólica estrada de chão batido, com aquele ar meio campo, quase rural, e depois é um suspiro após o outro. Garopaba é linda... Vou até a ponte do Siriú, dobro à esquerda e mais uns mil metros, fica o engenho do Galego, no pé do morro. Até chegar, vou contornando a lagoa do Macacu, que desemboca no mar. A vista é demais. Agradeço a Deus.
Manoel Pires, 66 anos, o seu Neca, é agricultor aposentado do Siriú, e trabalha no engenho desde guri: seu avô e seu pai tinham engenho de farinha e de cana, no Macacu, numa tradição que se mantém por gerações em Garopaba. Ele conta que anos atrás, no Siriú, onde mora desde que casou com dona Maria, havia cerca de duas dúzias de engenhos, mas apenas uns seis ainda se mantém. O engenho do Siriú, ele herdou do sogro, e mantém até hoje.
Segundo seu Neca, as pessoas deixaram a agricultura para trabalhar em outras atividades e com isso os engenhos estão rareando. Seus cinco filhos tomaram outros rumos também. “Hoje já tem emprego, e as pessoas saíram da roça pra trabalhar porque o trabalho é mais fácil.”
Os poucos engenhos de farinha que restaram estão a todo vapor nesta época do ano, e seu Neca conta como fazer a tradicional farinha da Garopaba. Naquela tarde ele estava sendo auxiliado pelo genro Jackson Leguissamo no engenho do Galego, na Costa do Macacú.
ONTEM E HOJE - Seu Neca conta que em outros tempos, antes da chegada da luz elétrica, tudo era tocado à mão ou com a ajuda de bois, num trabalho artesanal. Inclusive as grandes peças do engenho, lindas, todas feitas à mão de madeiras maciças enormes e adaptadas às necessidades da atividade. Sem carro, seu Neca conta que a mandioca era transportada no carro de boi, de longas distâncias, até chegar ao engenho que reunia toda a família e a vizinhança para fazer a farinhada.
Agora, seu Neca deve trabalhar ali por uns três dias para a pequena produção que é para consumo próprio.
PASSO A PASSO - Seu Neca conta como começa o ciclo: a rama da mandioca é plantada em setembro e colhida depois de um ano ou mais. Antes as plantações eram maiores, mas hoje o pessoal já não come tanta farinha como antigamente. Na época em que trabalhava, seu Neca conta que ele, a mulher e os filhos ajudavam na colheita da mandioca.
Época aliás que todos por aqui eram criados à base de farinha: misturada com peixe, com feijão e arroz ou - em tempos de vacas magras - farinha com água pra matar a fome.
Colhida, a mandioca chega no engenho, em grandes cestas de palha, e as mulheres das redondezas raspam a casca com uma faca. Depois, a mandioca vai para o cocho de madeira, onde é lavada e limpa.
Passa pelo cevador, onde é triturada e moída, e é colocada em grandes sacos, para ser prensada no fuso - tipo um enorme parafuso de madeira - onde fica por dois dias até soltar água e umidade.
Jackson conta que algumas mulheres utilizam o que sobra da água - o polvilho, para engomar roupas.
A pasta mais seca volta novamente ao cevador, e depois é passada por uma peneira.
Depois vai pro forno, aquecido à lenha, e vai sendo remexida onde fica por uns 20 minutos, saindo soltinha e levemente quente. É guardada em tonel de madeira e fica ali para ser ensacada. Segundo seu Neca, dura por cerca de um ano, guardada em recipiente fechado.
Anos atrás fazer farinha era evento social com familiares e vizinhos em volta do engenho, aquecidos pelo fogo, contando os fatos do dia.
Seu Neca conta que hoje faz a farinha para consumo próprio e vende para alguns vizinhos e amigos, mas na época do seu Dedê Nauck - próspero comerciante na Garopaba nos anos 60 e que revendia tudo que era produzido na pequena Vila de Pescadores - a venda da farinha sustentava muitas famílias de agricultores nos meses de inverno, quando os engenhos trabalharam sem parar.
Naquela época seu Neca produzia cerca de 95 sacos de 45 quilos de farinha. “Era um engenho grande, cheio de farinha, e vendíamos no verão para pegar preço. Hoje faço só uns quatro sacos. Ninguém mais come farinha”, diz ele, lamentando que a tradição vai se perdendo com o passar dos anos.
“Eu ia pra roça e quando voltava trazia uns trinta quilos de mandioca, tudo no carro de boi,” relembra ele dos áureos tempos de produção, em que mantinha o engenho de cana e farinha, trabalhava na lavoura e pescava. Apesar de aposentado, seu Neca mantém o engenho no Siriú funcionando de maneira mais tranquila, diz que ainda hoje planta cana para a fabricação de cachaça porque ficar parado não é uma boa.
Seu Neca e dona Maria levam a vida em ritmo mais lento, gostam de participar da Igreja, além das animadas reuniões regadas a café da tarde - com jogos de dominó e baralho - do Grupo de Idosos Alegria. “Toda quarta-feira tem uma festinha lá. É legal,” diz seu Neca, enquanto faz a farinha da melhor qualidade “made in Garopaba.”
tatapires@jpgaropaba.com.br



Tata Pires       25/08/2011 às 18:24:35



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