ALEMANHA - A família Nauck fez história em Garopaba, eternizada em lembranças dos moradores da antiga Vila de Pescadores e em nome de rua.
Para contar um pouco sobre a Garopaba de outros tempos, o empresário Vitor Nauck, 53 anos, sócio-proprietário do Hotel Litoral, falou sobre sua família, relembrando fatos e em especial sobre seu avô, o seu Dedê, próspero comerciante que impulsionou os negócios por aqui no século passado.
Vitor conta que tudo começou com a chegada de seu bisavô Alberto Nauck, alemão vindo de Bohn, que aportou no Paraná, trazendo uma pequena fortuna em ouro, o que permitiu adquirir várias propriedades em Florianópolis, onde casou e formou família. Deste casamento, nasceu o avô de Vitor - Victor Carlos Nauck, o famoso Dedê; Antonina e Teobaldo, todos falecidos.
Seu Dedê veio parar em Garopaba, quando os pais faleceram, e a mãe doou o dinheiro da família para a Irmandade dos Passos de Florianópolis. Deixou também o filho Victor (seu Dedê) para que as irmãs o encaminhassem. Assim, seu Dedê ingressou na Polícia Militar e chegou a Garopaba como cavalariano. Aqui casou com Auta de Freitas Nauck, filha do ex-delegado Genuíno Freitas, homem de costumes bastante rígidos.
Seu Dedê e dona Auta tiveram três filhos: Ernesto Henrique Nauck, pai de Vitor; Aurino e Lica, todos também já falecidos.
VISIONÁRIO - Seu Dedê era um visionário, conta o neto Vitor. Ele chegou aqui como soldado e nas horas de folga tratou de fazer negócio: comprou uma canoa a vela, e naquela época de cação abundante, pegava e vendia cação; e ovos de galinha e peru, que eram criados no Ferraz; vendia as mercadorias no Mercado Público. Muitas vezes porém, seu Dedê perdia o serviço na polícia porque o transporte era por mar: com o vento Sul, as embarcações rumavam para Florianópolis e com o nordestão retornavam a Garopaba. Como os negócios prosperaram, ele deixou a Polícia Militar, e começou a comprar toda a produção de peixe, ovos, farinhas, enfim, tudo que pudesse ser comercializado. Tinha também um beneficiamento de arroz, criação de porcos, engenho de farinha, chegando a ‘exportar’ mercadorias de Garopaba para o Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.
Garopaba vivia em torno do Centro Histórico, com meia dúzia de casas espalhadas pelas comunidades; peixe, agricultura familiar e os engenhos de farinha, eram as atividades econômicas.
A fartura era uma coisa de louco, diz Vitor. “Os pescadores saíam às quatro da manhã e voltavam às cinco da tarde. Dava cação de quatro metros, muito linguado, pampa pescado na linha na Silveira. Meu avô começou a comprar toda a produção de peixe, sustentando todos os pescadores.”
SALGA - Como não existia energia elétrica, para armazenar a grande produção de pescados e poder revendê-las para outros lugares, seu Dedê construiu enormes tanques de cimento, onde hoje fica o Hotel Litoral, e ali os peixes eram conservados em salmoura.
Vitor lembra do tempo em que trabalhava na salga, fazendo caixas de madeira de dez quilos para pôr as sardinhas e “exportar’ para Maringá, no Paraná. Ele e os três irmãos - Rosimara, Auta Maria e Huri, 47 anos, sócio no Hotel Litoral - foram criados nas pequenas e tranqüilas ruas do Centro Histórico numa infância das mais felizes.
ENERGIA - “Meu avô era dono da cidade, onde hoje é o supermercado Silveira era tudo nosso. Foi ele quem trouxe a energia elétrica para Garopaba. A estação de luz ficava na esquina próxima onde hoje é o cartório do Joaquim.” Seu Dedê trouxe o motor a querosene, e um amigo trouxe o fio, que mantinha as casas com energia até às 10 da noite. A água da Casan, segundo o neto Vitor, também contou com a ajuda de seu Dedê, que doou um terreno no morro do seu Dedê, onde hoje é o Loteamento Panorâmico, para colocar a caixa de água, e abastecer a cidade.
Com a chegada da energia, o negócio tornou-se ainda mais profissional e os enormes tanques de salga foram substituídos por um grande frigorifico, com câmaras de trinta toneladas que armazenava os pescados a serem ‘exportados.’
Vitor diz que seu Dedê era considerado o pai da pobreza. Conta que quando agosto chegava, o dinheiro minguava e o nordestão escasseava o peixe, e os pescadores iam pedir adiantamento ou peixe para comer, e seu Dedê ajudava a todos.
REFERÊNCIA - A casa de seu Dedê e dona Auta era ponto de referência e estava sempre cheia. O fogão à lenha funcionava 24 horas e a fartura imperava na cozinha comandada pela preta velha, Femiana, mucama que serviu à família e que morreu com mais de cem anos.
Seu Dedê era cercado por serviçais, tinha também o Arlindo, que ainda vive, apesar de estar doente. O Arlindo, conta Vitor, picava uns 15 palheiros, deixados sobre uma grande tábua,na mesa da cozinha, cedo da manhã, e que eram tragados por seu Dedê, que usava sempre chapéu e suspensório.
TECNOLOGIA - O primeiro televisor foi seu Dedê que comprou: uma Colorado RQ - Reserva de Qualidade, com a vizinhança curiosa que acompanhava a programação preto e branco espiando pela janela ou apinhada na grande varanda da casa dos Nauck. O primeiro rádio, também foi comprado por seu Dedê e Vitor tem guardado até hoje.
”Para entrar na cozinha da casa, tínhamos que usar calça, de calção não, mas podíamos chegar tarde da noite, com dez pessoas, que tinha comida para todos,” relembra Vitor. Nos áureos tempos, com o frigorifico a mil, seu Dedê enriqueceu vendendo peixe e as mercadorias ‘fabricadas em Garopaba’ até que ele e os filhos - o pai de Vitor e Huri, cismaram em fazer um barco de 57 metros, e no investimento perderam um dinheiro razoável e foram obrigados a vender algumas terras, no Morro do seu Dedê, e outras mais.
O pai de Vitor chegou a conduzir os negócios, sempre ligados à pesca, teve também uma fábrica de gelo, e foi da família a empresa Paulo Tur.
Vitor conta que depois da construção da embarcação e com o advento do turismo, os negócios tomaram outros rumos.
TURISMO - Ele diz que o primeiro turista que chegou foi Ernesto Neugebauer, dono dos Chocolates Neugebauer de Porto Alegre. “Vinha de caminhão Mercedes, com umas 20 pessoas, acampava na Vigia e tinha um rádio amador porque telefone só na Araçatuba”, conta. Para telefonar era uma saga: “nas margens onde hoje é a SC-434 morava dona Etelvina, saíamos daqui às quatro horas da manhã de Rural Willis, íamos até a casa dela, na Araçatuba. Tinha um telefone de manivela. Pedíamos, via telefonista, ligação, por exemplo, para Florianópolis; retornávamos a Garopaba e depois à Araçatuba, e lá pelas onze da manhã a ligação podia ser completada” conta Vitor.
O Ernesto Neugebauer, recorda Vitor, trazia um cozinheiro e os filés de peixe eram cortados pela avó Auta. Os barris de chope que vinham com a ‘comitiva’ dos Neugebauer eram guardados no Frigorifico dos Nauck, pois não havia refrigerador. “Meu avô era um cara de coração extraordinário, gostava de mesa cheia. Minha avó Auta era o pulso firme, cuidava do dinheiro e das contas; ela era quem atendia os pescadores, e fazia o pagamento dos quase 200 funcionários que trabalhavam para a família. Dona Auta só errou quando aconselhou seu Dedê a não comprar o morro inteiro da Vigia: “não presta” disse ela, “pois nem cabra nasce lá.” Na época os lotes de terra eram imensos, e vendidos a troco de banana.
As famílias abastadas da época podiam mandar os filhos para estudar fora. Assim, Vitor foi para o Colégio Catarinense, em regime de internato, no início dos anos 70, mas Florianópolis ficava no além: “era como trafegar 300 km, em estrada de chão. Íamos de Rural Willis e no Maciambú, muitas vezes cortamos eucaliptos no meio da estrada para poder prosseguir.”
Na capital, Vitor, formado em segurança do trabalho, trabalhou no IBDF e na Celesc e ficou por quase 15 anos, quando retornou a Garopaba. HOTEL - Com a chegada do turismo, que só acontecia ainda no Centro Histórico, o irmão Huri, 47 anos, iniciou o Hotel Litoral, com pequenos quartos de madeira, alugado para as amigas de verão, que usavam o banheiro e a cozinha da família Nauck, mas o primeiro negócio do neto de seu Dedê, foi uma banca de revista, a primeira da cidade, instalada onde hoje é a recepção do Hotel Litoral. Huri buscava as revistas em Florianópolis e, em dinheiro de hoje, cobrava um real sobre o preço de capa, e a turistada ficava indignada, mas como era a única que tinha. Era pagar ou não ler... Era a época da gloriosa Manchete, e tinha a Veja, Quatro Rodas, Fatos e Fotos, Zé Carioca, Capricho e a banca do Huri durou por três temporadas.
O turismo impulsionou o Hotel Litoral, e os quartos de madeira, de 20 anos atrás, transformaram-se em 38 apartamentos do amplo prédio no Centro Histórico, cenário, aliás, de grande parte dos negócios da família Nauck. É é comandado pelos irmãos Huri e Vitor e a esposa Marluce, que também possuem a transportadora Transnauck.
Para Vitor, se não fosse o turismo, Garopaba seria ainda uma colônia de pescadores, e é hoje um lugar privilegiado para viver: “não se vê violência, gente pedindo esmola, a qualidade de vida é excelente e isso se deve ao turismo, e 90% ao povo gaúcho, que descobriu Garopaba,” diz.
BELEZAS - Vitor relembra a infância maravilhosa: “Nascemos e nos criamos aqui, brincando com carrinho de rolimã, estudamos na José Rodrigues Lopes e tivemos uma boa educação.”
Lembra também das duas lagoas imensas - onde hoje fica o Loteamento Panorâmico - que iam até a João Orestes e nas quais ele banhava os cavalos. “Para ir ao Morrinhos, tínhamos que passar pelo Rio Negro, onde hoje é o camping Lagoamar: de cavalo, com água no pescoço,” conta.
Seus hóspedes, diz Vitor, se encantam com Garopaba, embora ele veja muito descaso com o turismo, “nossa única indústria” diz. E lamenta que apesar de tão bela, com gente tão boa e honesta, em Garopaba prevalece na política, o interesse particular.
“Em Gramado, o Lago Negro, cartão postal da cidade serrana gaúcha, foi feito artificialmente e nós temos uma lagoa natural, imensa, abandonada... Não entendo por que Garopaba tem esse ranço político” diz Vitor que já foi nome ativo na política - foi presidente do PP e suplente de vereador.
Conta que desde que conheceu a palavra de Deus abandonou a política, embora esteja aberto para ajudar no que for preciso.
Seu Dedê faleceu há uns 20 anos, mas está eternizado nas lembranças dos netos e de antigos pescadores. Foi um homem à frente de seu tempo e que fez história em Garopaba...
Alguém dúvida?
tatapires@jpgaropaba.com.br
* Este e outros artigos integram o livro a ser publicado sobre a história de Garopaba, escrito a partir dos relatos de Manfredo Hübner.
05/05/2011 às 16:02:26

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