“Lixeiro não, gari,” diz Anderson de Oliveira Maassen, 29 anos, que trabalha há um ano e meio como gari, fazendo o recolhimento do lixo. Funcionário da Resamb, ele e os colegas de trabalho gostam de ser chamado de gari, nenhum preconceito, muito pelo contrário, ele tem orgulho de trabalhar honestamente, mas para eles, lixeiro é o local onde as pessoas depositam o lixo. Seis dias por semana, Anderson trabalha coletando lixo, a partir das seis da tarde, sem hora para terminar. No inverno, a função acaba pelas 11 da noite, mas no verão, entra madrugada adentro.
Gaúcho de Porto Alegre, Anderson veio morar em Garopaba há quatro anos, para fazer companhia à avó que ficou viúva e reside no Pinguirito. Na capital gaúcha, ele vendia e montava cortinas e persianas verticais. Aqui ele assumiu a função de gari porque queria um emprego estável, e não apenas de temporada e na sua área - persianas e cortinas verticais - não havia trabalho por aqui.
ROTINA - Ele e mais três garis fazem a coleta de lixo noturna: partem da fábrica da Mormaii, por volta das 18h, vão para o Panorâmico, ‘lavá-lo’ (área da rodoviária), Bavária, Morro das Antenas; Ferraz, Morro do seu Pedrinho (do lado da padaria Amorim), Morrinhos, Lagoinha (lagoa das Capivaras e camping do Jovino); Canto Chico (ruas próximas à Lagoa das Capivaras). Lavá-lo, Morro do seu Pedrinho e Canto Chico são ‘áreas’ denominadas pelo motorista do caminhão, Asteróide. Anderson diz que a área da rodoviária é chamada por eles de Lavá-lo porque quando chove tem poças imensas de água.
Depende da quantidade de lixo, a hora em que ele volta para casa, mas no inverno, é por volta das 23 horas. No verão, entre uma e duas da manhã. “Mas o lixo só aparece mesmo depois que o pessoal vai embora, porque as faxineiras fazem limpeza geral, principalmente após o réveillon e Carnaval,” quando o recolhimento pode esticar até as quatro da manhã.
Para coletar todo o lixo da cidade, a Resamb utiliza dois caminhões pela manhã e um à noite - o prensa pode captar cerca de 5 toneladas e os menores cerca de duas toneladas cada. O Anderson, por exemplo, sai à frente do caminhão para começar a organizar o lixo, momentos depois o caminhão passa.
Anderson conta que geralmente recolhem entre cinco e sete toneladas por noite, e sobem e descem do caminhão incontáveis vezes, o que, aliás, os mantém em plena forma física. “Eu adoro competir com o caminhão: subir a Vigia correndo ao lado do caminhão” diz.
Para facilitar a corrida, calção, camiseta e luvas para proteção e dependendo do clima, capa de chuva também.
CONSUMO - Garrafas pet e de água cinco litros são as preferenciais nas lixeiras e a Coca-Cola é a preferida, diz ele. Na temporada, as garrafas de cervejas são comuns também e na virada deste ano, eles recolheram de 15 a 17 toneladas de garrafa de espumante só no Centro!
GENTILEZA - A comunicação com o motorista Asteróide é feita por assobio, ou aos gritos - um assobio segue em frente; dois, é prensa. “Somos os olhos do motorista, quando ele quer dar a ré,” diz.
Os carros algumas vezes são gentis, segundo Anderson, mas outros querem passar rápido e os garis que se danem. Ele diz que muitas pessoas são educadas, mas outras nem tanto. Há muitas reclamações infundadas a respeito da coleta de lixo, que são verificadas in loco, por seu Joaquim Pacheco, proprietário da Resamb.
ACIDENTES - A maior dificuldade para ele e os colegas é a falta de proteção em objetos de vidros quebrados. “O ideal, como alguns fazem, é cortar uma garrafa pet e proteger a garrafa de vidro quebrada, por exemplo; ou ainda usar papelão, ou guardar numa caixa de leite” ensina. “Muitos também pensam que caminhão de lixo, é caminhão de entulho - concreto, tijolos e restos de construção não são recolhidos; fezes de cachorros e animais domésticos, em sacolas, são recolhidas; já móveis e eletrodomésticos também são recolhidos, e chegam até a esteira na Resamb, onde são separados e encaminhados para reciclagem (metais, garrafas, papel), compostagem (restos de alimentos, lixo orgânico) ou aterro sanitário.
Um caco de vidro, caído no chão, próximo à lixeira, passou pelo solado da bota, e feriu o pé de Anderson, obrigando ele a se medicar no Posto de Saúde, depois de acabar a rota. É o acidente mais comum que eles sofrem.
Anderson diz que muitos sacos, ao serem jogados no caminhão, se abrem dificultando o trabalho dos garis, por isso faz o apelo para que as pessoas não encham demais os as sacos de lixo, até porque eles pegam dez, 15 de uma só vez.
Outro pedido, que faz aquela diferença é separar o lixo: “O ideal é separar o lixo, pois na Resamb todos os lixos são abertos e separados - por isso a separação facilita muito o trabalho deles. Comida misturada com lixo seco, infelizmente, é muito comum ainda, demonstrando a falta de respeito e consideração pelo trabalho dos garis. Para os restaurantes, barracos de pesca, peixarias, supermercados a Resamb fornece bombonas para depositar restos de comidas que vão para a compostagem; as bombonas são recolhidas diariamente e devolvidas limpas.
CACHORROS - Anderson tem uma teoria para explicar a fúria dos cães em relação aos garis: “Eles acham que estamos ‘roubando’ as coisas da casa” diz. E os incidentes já foram muitos, inclusive com pit bull, em pátios sem segurança, que saem atrás dos garis.
Alguns proprietários não dão à mínima, apesar dos garis pedir que colaborem. “É por a mão na lixeira e poder perdê-la rapidamente,” diz.
LIXEIRAS - Muitas residências não possuem lixeira, o que também dificulta o trabalho dos garis. Há pessoas que colocam o lixo em cima de muros ou árvores e quando o gari vai pegá-lo muitas vezes pode derrubar tudo sobre si. Anderson fala que ele e os garis chegam a procurar os moradores, quando tem problema desse tipo, e diz que muitos aceitam, outros porém, não dão à mínima.
PRECONCEITO - O salário de um gari está por volta de R$ 1.100,00, mais adicionais e mesmo assim, diz Anderson, a classe sofre com o preconceito. “Vocês são lixeiros,” uns dizem. Apesar do salário ser superior a muitas outras categorias, muitos ainda tem preconceito.
CURIOSIDADES - Tem certas coisas que ele e os colegas não sabem como vai parar no lixo: chaves, óculos, roupas, relógio, roupas - que ele doa no Pinguirito, e inclusive dinheiro é achado.
Segundo Anderson, em zonas de classes mais altas o lixo é melhor condicionado; uns inclusive colocam no lixo roupas lavadas e limpas - ao contrário de zonas menos abastadas, onde os moradores misturam tudo.
Telefone, furadeira montada na caixa, e uma máquina de cortar grama novinha também já foram encontradas no lixo.
“Muito do que os outros jogam fora podemos aproveitar” diz ele.
CONTAINER - Colocados recentemente pela Resamb em algumas áreas da cidade, facilitaram o trabalho, principalmente na avenida dos Pescadores, onde os sacos eram revirados pelos cachorros.
A ideia de Anderson é continuar no trabalho e seguir, durante o restante do dia, fazendo serviços gerais e de manutenção. A mãe ensinou que o ideal, para não passar por dificuldades, era saber fazer de tudo um pouco.
Anderson planeja comprar um terreno, construir uma casinha e quem sabe alugá-la no verão. Ele pretende realizar seu sonho trabalhando de gari e nos serviços gerais, que reforça o orçamento - pinturas, corte de grama, entre outros - que podem ser contatados pelo tel.: 9106-7702.
Ele diz que gosta de viver em Garopaba e se acostumou muito bem com a tranquilidade do local. E mesmo antes de ser gari, sempre teve a consciência de separar o lixo, e lamenta, por exemplo, a falta de campanhas nesse sentido. Nunca foi convidado, por exemplo, para falar sobre seu trabalho em escolas...
Faça chuva, Sol, frio, não importa: os garis enfrentam qualquer coisa para cumprir seu trabalho e por isso merecem todo o nosso respeito.
Separar o lixo - seco e orgânico - é o mínimo que podemos fazer para retribuir a dedicação deles em deixar Garopaba ainda mais bonita.
tatapires@jpgaropaba.com.br
Jornal da Praia Garopaba
18/04/2011 às 13:57:28

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