Domingos João Ribeiro, 76 anos, diz que “aqui na Garopaba todo Joca é João e todo o Mingote é Domingos.” Por isso é o conhecido Mingote, de família respeitada na pesca, homem de muitos amigos, uma simpatia de pessoa.
Dona Dilma Correa Ribeiro ele ‘roubou’ em alto mar. Ela tirava marisco das pedras, na Gamboa, Mingote se aproximou de barco e abanou. Foi amor à primeira vista. Tratou de ‘roubar’ a futura esposa, uma prática muito comum por aqui, e trouxe ela de barco até Garopaba. Assim iniciou a vida a dois da família Ribeiro: casados há 54 anos, o casal tem oito filhos - Lindaura, Linauro, Laerte, Lindomar, Lindalva, Laércio, Lucimar e Leonardo. Todos iniciando com a letra ele (L) “porque ele gosta muito da Lua” diz a filha Lindalva, que acompanhou a entrevista, em frente à Peixaria Litoral, que ela administra. A família Ribeiro é numerosa, além dos filhos, Mingote e dona Dilma tem doze netos e um bisneto, que enchem a casa de alegria quando todos se reúnem.
Nascido na Garopaba, descendente de açorianos, a família é ligada à pesca desde sempre, ofício que perdura por gerações. Todos os homens, dos nove irmãos de Mingote, também se dedicaram à pesca. Criado na beira da praia de Garopaba, local privilegiado onde também foram criados os filhos, Mingote relembra o quanto Garopaba era linda e exuberante, apesar de gostar da chegada do progresso, bem diferente da época em que a pomboca iluminava a pequena casa de madeira, que abrigava a numerosa família, e que muitas vezes serviu para abrigar turistas, lá nos idos anos 60.
PESCADORES - “Meu bisavô e avô eram patrões das canoas de tainha” diz Mingote lembrando que o avô chegou a matar baleia - na época da Armação. “Eu e meu pai não” disse, mas ele lembra da camada grossa de graxa e o cheiro forte que ficava na praia por causa do óleo.
Na juventude, Mingote tinha lancha (para alto mar), bote e canoa para arrasto, mas é do tempo do barco à vela, pois começou na pesca quando criança, acompanhando o pai. Lembra, quando recém-casado, que pescava de espinhel, saia antes de anoitecer até a Lagoa do Ribeiro, “de pé” que fica a alguns quilômetros daqui, em Paulo Lopes. De lá, voltava “de pé” pela uma da manhã com a isca de camarão, que era arrumada no espinhel pelos companheiros. Quanto tudo estava pronto, acordavam o Mingote - que dormia algumas horas e saiam ao mar, lá pelas quatro, cinco da manhã, retornando ao meio-dia. “Tinha tudo que era peixe. A gente tirava 40, 50 toneladas de sardinha, e os caminhões levavam dois, três dias para recolher, tanta era a fartura há 20, 30 anos. Tinha de tudo: cação, corvina, abrótea, anchova.”
Na opinião dele e de Lindalva a escassez de peixe chegou com os barcos de pesca industrial, munidos de alta tecnologia - que se aproximam demais da costa. Com redes finas como tela, pescam tudo, impedindo o peixe se desenvolver por aqui. “Nós pescávamos a olho nu: só tínhamos uma bússola e um rádio para comunicação. Ano passado limitaram os barcos industriais a seis milhas e se pescou muita tainha. Foi um inverno de muita onda, mas fazia mais de 40, 50 anos que não pescava tanta tainha,” fala.
APUROS NO MAR - Foi lá na Gamboa... “As fortes ondas e a força da água amontoou toda a tripulação em cima da lancha. E todos queriam se encostar em mim porque só eu sabia nadar.” Mingote tratou de trazer um a um dos companheiros, a nado, pra beira da praia, até que dessem pé e pudessem caminhar em direção à areia. “Isso, sem perder o boné da cabeça,” diz ele.
Lindalva conta que os irmãos Ribeiro são exímios nadadores: além de Mingote, Ponciano, Claudio, Eder e Jair - que é o presidente da Colônia de Pescadores Z-12. “Eles são feras, mais rápidos que motor de uma popa ligado,” compara.
Outro apuro foi quando um espinhel feriu sua mão, impedindo ele ligar o motor do barco. Mingote não mosqueou: amarrou uma camiseta na mão, para estancar o sangue, e nadou com uma mão só, até a praia, deixando a lancha no mar. Garante ele, como podem pensar alguns, que não são histórias de pescador...
Aposentado, ele continua na ‘artimanha’ do mar, diz Lindalva, mas a pesca de tainha é a que mais gosta e para qual ainda se dedica. “Se o pai morrer pescando tainha, morre feliz...”
Apesar dos 76 anos, Mingote foi a atração pelo segundo ano consecutivo da corrida de canoas, que aconteceu durante a Procissão dos Navegantes. Saiu de casa às seis da manhã e chegou às dez da noite: tirou o segundo lugar, representando a Gamboa, porque a canoa e a tripulação é de lá, além de ser a comunidade onde a mulher, dona Dilma, nasceu. “São amizades desde a infância que ele não deixa para trás” diz Lindalva.
“Se passar dez tainhas lá - aponta ele para uma distância de 20 metros - eu daqui vejo até quantas tem: a tainha verdadeira e o facão (bem mais magro). Se vier três tainhas e três facões, eu sei... porque os olhos do facão vem piscando. Foi o Mané Sabino, da Guarda, que morreu com 115 anos, quem me ensinou. Eu trabalhei 50 anos com ele” conta o experiente pescador.
FILHOS - Não havia lá muitas dificuldades, diz Mingote, porque moravam próximos da escola e todos estudaram. Pelas dificuldades financeiras, nenhum deles se formou, mas todos foram muito bem encaminhados, e a maioria trabalha no comércio - aprenderam com o pai, já que o acompanhavam revendendo os peixes. Com a mãe, aprenderam o senso de organização, já que dona Dilma, 74 anos, mantém a casa impecável: “pode chegar a qualquer hora, a casa tá toda limpinha porque as cinco horas ela levanta e começa na lida” conta Mingote com ar de admiração.
FAMÍLIA - Dona Dilma é do lar. Quando os filhos eram pequenos, morando na avenida dos Pescadores, se não estavam na escola, ficavam todos em volta do pai. Muitas famílias de agricultores vinham da Gamboa, Siriú e Macacu até a casa deles para trocar peixe por aipim, feijão, milho verde, farinha. “Fomos criados na abundância do peixe” diz Lindalva, que guarda boas lembranças daquela infância simples e especial em todos os sentidos.
O maior comprador de peixe era o famoso seu Dedê, que revendia para outras cidades, o que era muito bom para os pescadores, lembra Mingote, que sempre teve um bom tino pros negócios.
GAROPABA ANTIGA - “Lembro das dunas de areia batendo nas nossas pernas, e a gente tinha que brincar dentro de casa” reclama Lindalva lembrando do forte nordestão que batia na pequena casa de madeira.
O Canto Norte da praia Central era ligado às Areias do Siriú. A sogra de Mingote vinha da Gamboa “de pé”, atravessando o Canto Norte, quando o mar ainda não tinha avançado e a beira mar era uma imensa faixa de terra...
O sogro, Pedro Correa, que morreu aos 93 anos, era agricultor na Gamboa, e o maior abastecedor de verduras da única fruteira, de João Liberato, que ficava na Praça Governador Ivo Silveira; fornecia aipim, melado, açúcar mascavo, feijão, mamão, banana...
TURISMO - Com tanta beleza e simplicidade, Garopaba não tardou em ser descoberta e Mingote lembra do primeiro casal a chegar por aqui. Chegaram de Vespa e acamparam no Morro da Vigia, conta ele. Depois os outros foram chegando aos poucos, especialmente os gaúchos.
“A gauchada sempre procurava a gente pra conversar, comprar um peixe, mostrar a praia. A velharada gaúcha toda me conhece”, diz ele que por várias vezes cedeu a sala da casa para hospedar turistas.
Com tanta camaradagem e simpatia, Mingote fez muitos amigos ‘estrangeiros’ e com eles também muito aprendeu.
CAMINHANTE - Mingote ajuda os filhos no comércio: na peixaria, fundada por ele há 28 anos, ele corta os peixes em filés, pois além de ser mestre na pesca, é mestre da faca também e sabe manusear o peixe como poucos.
Morador do Centro, quando não está em casa, está na peixaria ou na Telenet e adora tomar o café no final da tarde com dona Dilma e assistir ao jornal. Gosta também de assistir os jogos de futebol. E de caminhar, é claro, apesar de ter carro, diz que seguidamente pega o ônibus e vai até a Guarda, visitar uma família, amiga de muitos anos e por quem tem muita estima. Almoça com os amigos, dorme depois do almoço, toma café e as três da tarde sai de lá “de pé” passando pelas praias. Na Gamboa, na casa da cunhada, faz uma parada para mais um café e segue viagem. “Da Guarda até aqui são umas quatro horas e meia de caminhada, são cerca de seis quilômetros,” diz ele. “Eu caminho a Garopaba toda.”
Mingote diz também que nunca foi de ficar de noite na rua. É um homem de família, que tão bem soube conduzir os filhos, que tem o maior orgulho dele e da mãe Dilma.
“Eu vou elogiar o pai” diz Lindalva emocionada: “No mundo de hoje a gente vê uma dificuldade tão grande de educar, que meu pai e mãe não tiveram. Nós amamos eles. Minha mãe nos educou com chinelo e uma vara e pai apenas com o olhar.”
A infância tranquila vivida pelos filhos também está sendo curtida pelos netos, embora os tempos sejam outros: Mingote fala com orgulho do neto Rafael, filho da Lindaura, que vai se formar em odontologia.
Ele adora a vida caseira, as caminhadas e a casa onde mora, e para manter uma relação harmoniosa com dona Dilma, ensina: “a receita é viver um pro outro. E quando um falar, o outro deve baixar a crista; e se não quer baixar a crista, vira as costas, sai e volta depois...”
Simples assim...
* Este e outros artigos integram o livro a ser publicado sobre a história de Garopaba, escrito a partir dos relatos de Manfredo Hübner.
tatapires@jpgaropaba.com.br
11/04/2011 às 16:24:55

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