Valmiro Agostinho do Nascimento tem 62 anos, nasceu e cresceu numa família de pescadores e agricultores, atividades paralelas na Garopaba de então, pois se o peixe rareava a plantação alimentava a família. O avô de seu Valmiro fez nome na pesca, já era dono de barco, e a atividade foi passando geração adiante.
Na mocidade, seu Valmiro ‘roubou’ dona Santelina, que morava na comunidade do Ferraz, com quem está casado há 40 anos e tem cinco filhos: Rosilei, Valmiré, Marcelo, Fernando e Rosana; e oito netos.
O pescador conta que nasceu na rua Lauro Muller, bem próximo do Centro Histórico, onde o avô e alguns familiares moravam. Na infância, ele correu praia, lembrando que a diversão da gurizada era fazer canoinhas até poder entrar no mar para se dedicar à pesca, aos 12, 13 anos de idade. As dificuldades eram muitas: lembra que a refeição era peixe de manhã à noite, porque pão não existia, era muito pouco. Era peixe com farinha, banana, batata, aipim.
Ele e os irmãos cresceram na Praia Central, onde hoje seu Valmiro possui o Restaurante Embarcação. A beira mar era bem maior, havia muitos cômoros de areia e a casa de seus pais era uma das únicas por ali. “Era umas três quatro casas, era a única casa da cancha, como a gente chamava,” lembra.
Apesar do restaurante, tocado pela mulher e familiares, seu Valmiro ainda pesca, profissão que sustentou todos os homens da família e também é seguida pelos filhos Marcelo - Chorão, Fernando e Valmiré.
Seu avô, Simpilício do Nascimento, conhecido por Liço, já era proprietário de canoa de pesca de tainha, o forte da época, e também tinha uma lancha pra pesca em alto mar. “Era também matador de baleia. E a última que matou eu ajudei” lembra seu Valmiro da enorme baleia de 23 metros, morta há uns 40 e poucos anos. Desossada na praia, era levada em pedaços para Imbituba. Seu Valmiro lembra que as baleias vinham em quantidade mas depois ficaram ariscas. Na época da pesca permitida, matar a baleia era questão de sobrevivência. “Mortas a canhão, na proa do barco, seu Rubem, dono da embarcação atirava e matava. Trazia da ilhazinha até a beira da praia. Teve gente da Garopaba que chegou a comer carne de baleia” disse seu Valmiro, mas o que tinha valor comercial era o óleo, que iluminava as lamparinas, quando a luz elétrica ainda não havia chegado por aqui, e era também utilizado na construção civil, como na construção da Igreja Matriz São Joaquim.
A exemplo do avô, seu Valmiro tem barco de pesca de tainha, a que mais aprecia, e também um para pesca em alto mar. Na Garopaba de outros tempos e beleza sem igual, muita tainha foi pescada na Lagoa das Capivaras, que hoje agoniza com a poluição, conta ele.
Seu Valmiro diz que a rotina de um pescador é sair diariamente ao amanhecer, coisa que só não é feita quando o tempo indica cautela. Saem de oito a dez homens, ao clarear do dia, voltando pelas quatro da tarde, muito embora já aconteceram situações dele permanecer no mar por dias a fio. Nos anos 60 diz que foi pescar em Rio Grande, onde ficou por quase um ano. No trabalho em grupo, os pescadores dividem o peixe, uns ganhando mais e outros menos; vão para Imbituba, Laguna, Florianópolis, atrás de pesca de rede de cerco, como diz.
O olheiro vê o cardume e começa a correria: “Eu é que ponho o peixe na rede,” diz o orgulhoso homem do mar. “Eu é que cerco, vou mandando cercar,” diz ele que aprecia muito fazer rede: “tenho uma rede de 50 braças (uma braça é 1,5 metro) de altura por 400 braças de comprimento para pescar tainha. Preparo bem a rede.”
A maior pesca “foi uma lanço de corvina há mais de 25 anos, aqui na baía de Garopaba, umas 20 toneladas” diz o pescador que apesar das dificuldades no mar não conseguiria trabalhar em terra firme: “Prefiro o mar, pois tudo que tenho foi criado do mar. É sacrificado, mas gosto. E pra matar o peixe o pescador tem que tá no mar,” fala seu Valmiro que hoje dedica-se mais à pesca da tainha, mas coordena a pescaria quando um dos filhos assume o leme. Neste ano ele calcula que foram pescadas cerca de 80 toneladas de tainha por aqui, quantidade que varia conforme o ano. Mas se der anchova, seu Valmiro assume a pesca e se toca mar adentro.
Seu Valmiro conhece o mar como a palma da mão e distingue quando está ou não pra peixe, através do aprendeu com o avô Liço e o pai, seu Índio, pescador que também fez nome e recentemente faleceu.
No leme, sempre seu Valmiro: “De noite não coloco ninguém no leme, só eu,” diz ele que já passou por muitos perrengues em alto mar, principalmente quando o vento sopra de maneira assustadora. Ele fala que a tecnologia ajuda com o rádio, telefone, coisa que não existia e hoje tudo ficou mais seguro, pois antes era o pescador, o barco, a imensidão do mar, e a proteção de Deus.
DO MAR PARA A MESA - O Restaurante Embarcação existe há mais de vinte anos e com um detalhe que faz diferença: a maioria dos pescados é fornecido por seu Valmiro, saindo direto da rede para a mesa. Apesar de vender outros tipos de carnes, ninguém resiste à vista da baía da Garopaba, se deliciando com uma porção de frutos do mar com os pés quase na areia da Praia Central. Os clientes são de muitos anos, alguns desde 20 anos atrás.
A idéia do restaurante, que começou numa pequena peça de madeira, surgiu porque havia poucas opções de onde comer por aqui e seu Valmiro resolveu ocupar a privilegiada área que tem à beira-mar, onde mora desde que se casou, pois pertencia à sua família.
“Acompanhamos a chegada do turismo e os hippies viviam dentro do nosso galpão de pesca. Conhecemos muita gente” lembra.
Na cozinha está dona Santelina, filhos e noras que se revezam no atendimento.
No verão o movimento do Embarcação aumenta, embora de maneira geral tenha diminuído nos últimos anos, fala ele que tem contato direto com os visitantes, transportando gente há mais de 40 anos para conhecer a Ilha do Coral. Hoje ele faz o passeio a bordo da escuna Lendário, que circula pelas praias das redondezas levando turistas que perdem o fôlego admirando as belas paisagens.
ASSOCIAÇÃO - Presidente da Associação de Pescadores, com cerca de 60 associados, seu Valmiro diz que a entidade que ajudou a formar há três anos foi criada para atender reivindicações importantes da categoria.
“Sei o pescador que está na atividade e há muitos que não estão” diz ele que sempre está atento à chegada dos barcos de pesca industrial e o limite das cinco milhas, protegendo os pescadores artesanais.
Com o pai, seu Valmiro aprendeu uma lição simples, mas levada a sério: desde que fez a primeira carteira de pesca, aos 16 anos, nunca atrasou uma contribuição e isso serviu aos demais compromissos que assumiu durante a vida.
Católico, ele vai à Igreja toda semana, agradecer pelos filhos que estão todos casados e bem encaminhados e também pela fartura do mar que sustenta sua família há gerações.
tatapires@jpgaropaba.com.br
* Este e outros artigos integram o livro a ser publicado sobre a história de Garopaba, escrito a partir dos relatos de Manfredo Hübner.
20/10/2010 às 08:57:49

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